Categoria: José Luis Pardal

  • Cantar os Reis

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    Pensei ir a cantar os Reis de porta em porta para abraçar e desejar um feliz 2012 a todos os albicastrenses.

    Lembrei dos cantos e da animação da minha terra durante o dia de reis e ficou um gosto de saudade no ar.

    Dia 06 de janeiro também é o dia de desmontar o presépio. No primeiro sábado de Dezembro é sempre com grande alegria que preparamos, na sala de casa, um cantinho especial para celebrar o natal, com o pinheiro e o presépio. Hoje ao desmontar e guardar as imagens, o coração ficou triste por alguns momentos, mas logo me dei conta do sentimento que me apertava o peito e sorri ao lembrar com esperança de que mais um Natal será celebrado em 2012 e assim o será em todos os anos. A melancolia deve nos remeter para a esperança de dias melhores. E não é este o sentido desta quadra? A esperança e a certeza de dias melhores!

    A adoração ao Menino Jesus, é uma tradição das mais antigas das nossas aldeias, uma tradição gravada nas memórias e que remete a todos para a infância. Afinal é nesta fase mágica de nossas vidas que os sonhos, e os pensamentos são sem limites e cheios de possibilidades. Como seria bom se não perdêssemos este dom: sermos meninos(as) para sempre.

    Em Castelo Branco era frequente, constituírem-se grupos improvisados de cantadores e cantadoras que, à noite, percorriam as ruas da aldeia, de porta em porta, a cantar aos senhores de cada casa, para desejar saúde, sorte e prosperidade, para o ano novo que chegou abençoado pelo nascimento do Menino Jesus. Actualmente, esta tradição, ainda se mantem graças a iniciativa de alguns saudosos. A troca pela visita e o cantar dos Reis ou das Janeiras normalmente era uma peça de fumeiro, castanhas, amêndoas, figos secos, além da alegria de servir um prato de milhos regados com o bom vinho nacional. As linguiças e alheiras recebidas serviam depois para fazer uma patuscada, ou um fado, como dizemos por lá. Quase toda a gente adere e as famílias ao saberem dos cantadores nem se deitavam à espera que o grupo passasse pela casa. A iniciativa sempre foi organizada pela malta nova. que é na grande maioria das vezes a responsável pela animação e continuidade das tradições. Seria bom que os mordomos das festas começassem o ano com o canto das Janeiras e dos Reis assim além de manterem a tradição já iniciavam o ano com recursos para realizar as festas e integrar as duas tradições.

    QUE OS SANTOS REIS NOS TRAGAM A TODOS HARMONÍA E PAZ!

    FELIZ 2012

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • As obras continuam

     

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  • Pelas pombinhas

    Aqui a primavera chega com o murmúrio do vento que desce das fragas e corre, pela ribeira, ao sabor da margem. Por estes lados o tempo passa em ritmo próprio, com passos certos e sem pressa… A cada ano a vida renasce prenha das sementes que rasgam o ventre das terras que o inverno em vão congelou.

    A ribeira é a única que teima em passar sem se deter, sem nunca parar. Mas ela é certa e constante no eterno fluir da troca de estações. Para nós, simples mortais, passageiros. Viver o presente é a melhor maneira de ser eterno em cada momento. Um saber que leva tempo mas devolve felicidade.

    Um aviso para quem quiser passear pelas pombinhas! Precisa estar preparado para acertar o coração com o relógio deste paraíso e deixar encher o peito e os olhos com a beleza que jorra por todos os lados, e sentir, saborear o ar, e a natureza. Sem dúvida, isto é um grande privilégio que vale a pena!

    Um forte abraço para a Guilhermina e o Ernesto. Um muito obrigado ao Alberto Paulo pelas fotos. A todos um convite para visitarem este lugar encantador.

    Abraço

    Luis Pardal

     

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • “Bruçó”

     

    Resolvi escrever estas linhas para agradecer ao Antero Neto o exemplar que me enviou do livro de sua autoria “Bruçó”. Excelente obra que reflete o trabalho do autor e a sua paixão por resgatar a história antiga de Bruçó e das terras de Mogadouro. 

    Da minha parte lhes digo que é um livro é encantador, que recomendo a todos!Eu de primeira abri e não consegui parar de ler. Aproveito para informar que o livro já se encontra à venda na Livraria Carvalho, no Hotel Trindade Coelho e no restaurante “A Lareira”.

    Quero agradecer tambem ao Isaias Cordeiro pela gentileza de postar o livro nos correios, e me fazer participar desta leitura.

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    Citações: www.jornalnordeste.com

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    Arquivo: Edição de 15-03-2011

    Secção: Nordeste Rural

    Memórias de Bruçó

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    Obra literária compila memórias paroquiais de 1747 e 1758, notas históricas e etnográficas
    O espólio literário do concelho de Mogadouro está mais rico com a obra “Bruçó, As Memórias Paroquiais de 1747 e 1758, Notas Históricas e Etnográficas”, apresentado na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, em Mogadouro.
    Com autoria de Antero Neto, o livro divide-se em três capítulos, sendo o primeiro dedicado às Memórias Paroquiais do séc. XVIII. Nesta parte, o advogado descreve a estrutura administrativa e produtiva da época, tendo como referência a obra do Pe. Luís Cardoso.
    No segundo capítulo destaca-se um “breve ensaio” sobre o topónimo “Bruçó”, bem como a dissertação sobre a festa solstício dos “Velhos e Chocalheiro”, rituais de Natal que o autor disseca e tenta enquadrar. De referir, ainda, um estudo sobre o “Castelo dos Mouros”.
    Finalmente, na terceira parte do livro é feita a resenha da evolução demográfica da freguesia de Bruçó, desde o primeiro censo oficial de 1864, até aos dias de hoje.
    “É a minha primeira incursão neste campo, e representa um reencontro com uma paixão antiga pela História e Arqueologia”, salienta o Antero Neto, natural da aldeia focada na obra.
    Trata-se do segundo livro do advogado, sendo que o primeiro, com o título “Serões do Planalto” é uma colectânea de contos, lançada em 2006 sob a chancela da editora “Labirinto”.
    A edição deste livro contou com o apoio da Junta de Freguesia de Bruçó e da Câmara Municipal de Mogadouro.

    Por: Francisco Pinto

     

    Citações: mogadouro (ho mogadoyro)

    Sábado, 12 de Março de 2011

    Apresentação do livro “Bruçó…”

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    Fotos: José Bento da Silva.

    Decorreu hoje, na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, em Mogadouro, a apresentação oficial do livro “Bruçó, As Memórias Paroquiais de 1747 e 1758, Notas Históricas e Etnográficas”. A exposição sobre a obra esteve a cargo do Dr. Pimenta de Castro. No final houve sessão de autógrafos e convívio com os presentes, no bar das instalações da biblioteca.

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • O essencial está nos detalhes

    Nesta semana, mais um amigo chegou a Florianópolis, António Cordeiro, de Remondes, do Concelho de Mogadouro.

    Um verdadeiro enamorado pela sua terra a quem dedica uma paixão sem limites manifestada no site que escreve www.remondesonline.com  Foi através do site que nos conhecemos, por alguns artigos que ele escreveu sobre Castelo Branco que gentilmente autorizou a publicar aqui no site e blog. Na troca de e-mails logo informou que conhecia Florianópolis e que muito em breve viria por aqui. Nesta sexta feira tive a alegria de o conhecer pessoalmente e de almoçarmos juntos. Sábado de novo visitamos alguns lugares da cidade e almoçamos no Varandas de Lisboa, um restaurante sobre o qual lera um artigo no Jornal Diário Catarinense e que gostaria de conhecer.

    O António viaja o mundo com olhos abertos para os detalhes, as nuances, e as situações pitorescas que os países e povos apresentam.  Ao voltar para casa leva junto na mala, a riqueza dos lugares que visita. Impressionou a dedicação dele para estudar a história, cultura, costumes, as tradições de Florianópolis e Santa Catarina. Curiosamente fez revelações sobre lugares e coisas que eu não conhecia. Por exemplo fomos ao mercado provar uma chouriça feita em Pomerode que lembra as de nossa terra e que ele descobriu nas várias visitas que fez a esta Ilha da Magia. Um cozinheiro de mão cheia, quando o fui buscar ao hotel,   uma grata surpresa de presente: embrulhados em alumínio, uma dúzia de pasteis de bacalhau, maravilhosos, os autênticos, que ele fizera na casa de uma amiga.

    É também um estudioso da história de nossas terras, famílias e tradições. Uma memória fantástica, enciclopédica, rica de detalhes e de conteúdo que impressiona pelo vasto conhecimento e pesquisas sobre nossas terras e gentes.

    Conhece bem Castelo Branco e me revelou que foi praça do Arlindo Parreira no ultramar. Segunda feira antes da partida para o Rio ainda vamos almoçar juntos mais uma vez. Visitem o site www.remondesonline.com para acompanhar as narrativas que ele mesmo faz sobre a viagem.

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • O último presente do menino Jesus.

     

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    Em uma noite de Natal há alguns anos atrás, eu prometi a mim mesmo,que iria descobrir como, o menino Jesus fazia para deixar os presentes, nas botas que religiosamente, ao voltar da missa do galo, eu punha perto da lareira antes de ir dormir. Desde o ultimo Natal andava intrigado com e tinha jurado, a façanha, de que deste ano não passava, sem descobrir de que maneira ele vinha e mais importante que isso, por onde ele entrava para deixar os presentes, na lareira da minha casa. Determinado e muito intrigado fiz planos e montei uma estratégia infalível.

    Todo este interesse começou no soto da Tia Variza, dias antes do ultimo Natal, em uma conversa muito animada com ela. Os mais novos talvez não lembrem que ficava na praça.

    Perto do Natal era um sonho entrar lá. Ela e marido, o Sr Eloi, enchiam as prateleiras de brinquedos, e o mais curioso é que por algum motivo mágico de um dia para o outro, alguns brinquedos desapareciam. No dia seguinte não estavam mais lá e eu, para não perder nada de vista, diariamente monitorava o sumiço cada vez mais intrigado.

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    Eles tinham uma Volkswagen azul que até hoje lembro. Todo ano, pelo mês de novembro, saiam para ir ao Porto e a outras cidades fazer compras e, quando voltavam, a camionete estava abarrotada de caixas e embrulhos. O soto brilhava cheio de novidades e de fantasia. Eram pisca-piscas, arvores de natal, fitas, bolas coloridas, e muitos, muitos brinquedos. Eu ficava lá de olhos esbugalhados o tempo que eu podia. Minha mãe e meu pai tinham que ir lá me buscar ou mandar alguma das minhas irmãs para me fazer voltar ao mundo real. Mas não era tarefa fácil, era preciso me arrastar à força ou pendurado pelas orelhas. Esta segunda opção era a mais bem sucedida e a preferida das manas.

    Os dias que antecediam o Natal, eram dias muito animados. Todos os meus amigos que já andavam na escola, tinham alguns dias de férias, perto do Natal. Sobrava mais gente para pintar e bordar. E como quem tem vagar faz colheres, nós pintávamos o sete de muitas maneiras. Os rapazes maiores, nas noites estreladas, iam ao tanque da praça e com uma caldeira ou balde jogavam água para fazer uma trilha que no dia seguinte amanhecia solidificada pela geada. Era a nossa pista de patinação. Ficávamos em fila para deslizar. Depois com o embalo de uma corrida rápida, escorregávamos de ponta a ponta. Não preciso dizer que entre um escorregão e outro sempre aconteciam pequenos acidentes e brigas de garotos. Brincadeira não demorava muito tempo, conforme o dia avançava o gelo derretia e nós também tempo depois, engaranhados, pelo frio que fazia, fazíamos uma fogueira com lenha tirada as escondidas das rilhas dos vizinhos ou íamos para a lareira de algum para nos aquecermos ao lume.

    O inverno trazia algumas rotinas interessantes. Naquela época a maioria das casas ainda não tinham água canalizada e os marcos da praça, da Igreja, do vale e da rua das flores eram o ponto de encontro e de abastecimento. Uma rotina que fazia parte dos afazeres das mulheres albicastrenses ”ir à água” algumas tinham que ir varias vezes ao dia. Pois para lavar a cara de manhã, fazer a comida, lavar a louça, era preciso ir ao marco. Por causa da geada em muitos dias era preciso aquecer as torneiras com um fachuqueiro de palha para descongelar e poderem encher as cântaras.

    Nas semanas antes do natal os mordomos faziam o presépio. A cada ano uma novidade diferente o deixava mais esperado na curiosidade de todos. Cada comissão de festas queria fazer melhor que a anterior. O resultado final, apesar da saudável competição, nem sempre era dos mais bonitos. Na tentativa de superar os anteriores, por vezes exageravam nos tons e nas proporções da arvore, ou da gruta e o presépio, perdia a noção da escala das imagens e, assumia desproporções simpaticamente bizarras. Mas meus olhos de menino não viam desta forma. Naqueles dias o importante era que iam a fazer o presépio e eu queria logo ver o menino Jesus Chegar.

    Todos os anos eu e os demais comparsas fazíamos plantão na porta lateral da igreja para acompanhar o movimento dos mordomos e não perdermos nada de vista. Apesar da insistência não nos deixavam entrar de jeito nenhum e lá ficávamos eternos assistentes, a desejar crescer logo, para também podermos ser mordomos e fazer o presépio.

    Em um desses anos fizemos uma tentativa no mínimo criativa e cheia de engenho infantil. Pensamos em nos esconder dentro da igreja para assistir a tudo. E se pensamos melhor o fizemos. Um plano simples porem infalível, ficaríamos escondidos no coreto da igreja. Foram horas a fio trancados para poder acompanhar tudo em segredo. Para os que não sabem, esta parte da Igreja fica no fundo e só tem acesso por duas escadarias localizadas uma de cada lado da porta principal que fica ao fundo. Na pratica é como se fosse um primeiro andar, uma plataforma acima do meio da igreja para baixo bem acima da parte onde ficam as mulheres na igreja. Na nossa terra os homens sentam na frente perto do altar mor e do padre, e as mulheres ao fundo. Sempre achei engraçada esta divisão da localização das pessoas por sexo dentro da Igreja. A verdade é que sempre foi assim e até aos dias de hoje ainda tem alguns dos antigos e dos tradicionais que mantém a tradição. O coreto era também o lugar preferido pelos homens mais simples visto que lhes permitia estar na missa sem notarem as roupas mais humildes que usavam.

    Entramos na Igreja muitas horas antes dos mordomos chegarem. Não foi tarefa fácil, algumas devotas mulheres, ficaram na Igreja a rezar depois da missa. Nossa tropa na tentativa de ver se elas já tinham saído entrou algumas vezes e disfarçadamente ficávamos a rezar em frente ao altar do senhor dos passos. As mulheres foram ficando alarmadas com tanta devoção infantil, mas, como de repente paramos de aparecer, logo que rezaram foram para suas casas que já era quase hora de fazer o almoço aos maridos e filhos. Estranharam as mães que não aparecemos para almoçar. Já de campana Quando preparados deitados para esperar os mordomos em silencio, ouvimos ao longe o grito certeiro da mãe de um de nós: ó fulano…

    Quem nasceu na aldeia sabe bem o poder de comunicação e de alcance dos chamados maternos. Devido à insistência e ao coro de mães que aumentava em numero e nomes chamados no pregão, resolvemos levantar campana e ir almoçar, antes que elas tocassem o sino a rebate por pressentir que algo de terrível pudesse ter nos acontecido.

    Voltamos depois do almoço. Em casa todos estranharam a presa com que comi as nabiças com batatas do almoço. Acredito que não foi diferente com os demais. Voltamos rápido, tropa pontual quando em ação. Felizmente a devoção das nossas mulheres vem sempre, depois da obrigação de servir o almoço e matar a fome dos da casa. Com o caminho livre, entramos na igreja. Por sorte só os santos lá estavam e eles não costumam falar com ninguém além de Deus.

    Permanecemos imóveis deitados no coreto á espera dos mordomos para ver montar o presépio. Mas quem disse que garotos ficam quietos… Em menos de 15 minutos já nos tinham descoberto e em segundos nos puseram para fora. Já na rua desatamos a brigar uns com os outros para encontrar achar o culpado por nos descobrirem. Mais uma vez á porta a esperar. Pelo menos assim, podíamos espreitar e ver o que acontecia lá dentro sempre que algum mordomo entrava ou saia. Alem do presépio um delicioso perfume de Natal rico de aromas e tons decorava a igreja. Entravam canastras cheias de musgo em camadas, tapetes verdes felpudos com forte cheiro de terra molhada, um cipreste ou pinho ao bater os galhos na porta para entrar espalhava um rastro de resina. uma mistura doce amadeirada rica de sensações chegava da carpintaria do Ti António Bernardo em sacos de estopa cheios de lascas de madeira de olmo, freixo, cerejeira e castanheiro.

    Finalmente terminado o presépio podíamos entrar e dar uma olhada. Uma roda irrequieta e barulhenta formava um cordão de espectadores admirados com as novidades. Por segundos o reinava o silencio. Era como se cada um quisesse ver tudo com os olhos antes de abrir a boca para falar para o outro o que tinha mais interesse. Uma gruta ao centro, a burrica a vaca e a manjedoura vazia ao fundo, na Frente a Virgem Maria e São Jose. Um cenário de montes imitava a paisagem com musgo coberto de farinha em alguns lugares. A serragem e lascas de madeira faziam os caminhos parecerem reais. Enfileirados nos montes os pastores com ovelhas virados para a gruta chegavam para o nascimento do menino Jesus que iria nascer pontualmente no fim da missa do galo.

    Depois do presépio montado os dias para o natal passavam ligeiros e era fácil ver que andávamos mais comportados. Uma preocupação tomava conta de nós. Uma ameaça velada e repetida vezes sem fim pelos pais e avós. Será que te portaste bem este ano? Olha lá, que não sei não, se o menino Jesus te vai dar presentes. Por falta de vergonha ou medo o certo é que virávamos santos filhos e netos, obedientes pelo menos por alguns dias.

    Finalmente na missa do galo era a hora de pedir com mais força os presentes. Com medo e devoção interesseira, isto é, para garantir e não correr risco de ficar sem nenhum presente, punha no cestinho do menino Jesus uma ou duas moedas. Era muito pratica esta devoção infantil e as moeram eram para compensar alguma arte aprontada ao longo do ano e que ainda estivesse por reparar.

    Como tinha um plano infalível neste ano passei a missa inquieto. Voltei logo para a cama logo depois de por a bota na lareira e nem quis conversar nem aceitei as provocações que meu pai e irmãs faziam. Queria logo ir dormir. Mas fiquei quieto na cama a espera que todos dormissem e que se fizesse silencio por toda a casa. A uma certa altura senti passos vindo em minha direção. Fechei os olhos e mudei a respiração para convencer que estava realmente a dormir. Meus pais chegaram perto de minha cama, vieram se certificar se eu realmente adormeci, antes de irem na lareira. Sorriram confiantes um para o outro tranqüilos por verem que estava quieto no sono dos justos. Pelo som dos passos no soalho em direção a cozinha, soube que os dois já tinham saído do quarto. E pensei comigo mesmo, se eles vão para a cozinha para ver o menino Jesus eu também posso lá ir a esperar com eles. Levantei e sai do quarto sem fazer barulho. Com os pés calçados com uma meias de lã de ovelha feitas por minha mãe, era impossível escutar o suave roçar de meus pés na taboas frias.

    Ao chegar na cozinha, uma cena estranha. Perto das minha botas os meus estavam debruçados com um volume nas mãos. Havia pouca luz, mas ainda assim consegui ver pelo brilho das brasas nas toras ao lume que era uma camionete volskwagem, mesmo sem poder ver nitidamente pois estava escuro e não poderia ver as cores dela eu sabia que era verde e branca, a mesma que eu tinha visto no soto por alguns dias e que também sumiu como os outros presentes. Ao olhar o presente ali na mão deles entendi finalmente a frase que a Tia Variza me tinha dito dias antes: – Luis, o teu menino Jesus já passou aqui para comprar o teu presente.

    Voltei para a cama sem que me vissem. No dia seguinte acordei muito mais tarde já era perto da hora do almoço. Não estava feliz e minha boca estava seca e com um gosto ruim. Cheguei calado na cozinha. Ao ver o brinquedo que o menino Jesus me deu, não fiz a mesma festa com que sempre o recebia ninguém entendeu ou percebeu o que aconteceu, nem o desinteresse com o novo presente. Mas, minha mãe imediatamente viu que algo mudara dentro de mim. As mães sempre sabem dessas coisas que ficam espelhadas na cara dos filhos. Felizmente só elas as percebem e entendem.

    Finalmente eu sabia que não era o menino Jesus que vinha trazer os brinquedos. Nunca mais o Natal teve o mesmo significado.

    Passaram-se os anos. Tenho dois filhos, que agora estão com 16 e 14 anos. Enquanto cresciam e durante os primeiros Natais, pude entender e ver na expressão deles, a mesma magia que o Natal tinha para mim quando criança. Finalmente entendi que mesmo sem o menino Jesus ou Papai Noel, o Natal, tem um sentido muito especial. E que esta magia e simbologia devem ser mantidas e preservadas no coração de nossos filhos. Afinal é na inocência das crianças que o mundo mantém a sua mais pura e intima forma de felicidade e de beleza.

    Feliz Natal

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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  • A Fogueira do Galo de Castelo Branco, Mogadouro

     

    Algumas tradições são tão antigas, que já se apagaram na memória dos povos os significados, motivos e gestos, dos rituais que as motivaram. Nelas resta pouco da origem, são apenas fagulhas que de longe lembram o tema primordial da vida de nossos antepassados.

    Uma que felizmente permanece viva é a Fogueira do Galo. Esquecida na maioria das aldeias é celebrada e mantida, até hoje, em nossa terra, graças ao empenho, garra e vontade, dos rapazes solteiros e de alguns homens casados.

    Para alguns esta celebração remonta na antiguidade e chega até nós, dos rituais pagãos dos povos que povoaram o Hemisfério Norte. Pode ser que sejam apenas lendas… Alguns historiadores afirmam que o motivo tem a ver com a diminuição dos dias que ocorre no solstício de inverno. Ao ver que os dias ficavam menores e temerosos de que o sol se extinguisse completamente, os homens das aldeias reuniam-se, para fazer grandes fogueiras e chamar a luz solar através, da labareda e do calor, que subia aos céus. “Esta crença ancestral levou à adopção do costume de acender fogueiras para evocar o sol a brilhar com mais intensidade de luz e calor, para que a Terra Mãe não deixasse de ser fértil”, afirma o investigador António Rodrigues Mourinho.

    Com a chegada do Cristianismo o costume de acender fogueiras no inicio do inverno se mantém, mas assume um novo motivo: o nascimento de Jesus. Que coincidentemente ocorre quatro dias depois do inicio do solstício de inverno, no dia 25 de dezembro.

    Desde o século IV, um hino latino cantado na cerimônia do Natal aponta o nascimento no meio da noite. Daí o costume de assumir que foi a meia-noite que Ele nasceu. Também é Neste horário que o Papa celebra a Missa do Galo na Basílica de Santa Maria Maior, desde o século V.

    A tradição da fogueira do galo é incorporada no rito natalino como complemento ou antecipação da Missa. As simbologias se fundem em uma só: Jesus é a luz do mundo, que passa a iluminar a todos e, o acender da fogueira, uma celebração desta luz divina, luz e calor que não se apagarão jamais. Celebramos o nascimento de um menino Deus.

    Nas leituras da missa uma passagem de Isaias remete para o tema: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte, uma luz começou a brilhar.” Curiosamente em todo o calendário litúrgico só duas missas são celebradas à meia-noite, a Missa do Galo e a Missa de Páscoa, pois nelas há o sentido de procurar a luz no meio da escuridão.

    Mas porque se chamam missa e fogueira do Galo?

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Nisto as tradições são diversas. Uma porem tem algum fundamento. O animal representa a vigilância e a fidelidade ao testemunho Cristão. Quem não se lembra de Pedro a negar a Cristo, perto de uma fogueira, depois da ultima ceia e, do mesmo Pedro, perturbado com a presença e canto da ave, em hora estranha, que imediatamente o remetem para as palavras do Mestre, “ao cantar do galo me negarás três vezes”.

    Assim perante a fogueira, um novo testemunho de fé é pedido aos Cristãos. Ao ver os raios de sol o galo canta e portanto, ao reverenciar o sol nascente, o galo e o povo, louvam o seu criador Jesus Cristo.

    Muitas das Igrejas mais antigas têm um galo em seus campanários. Existe ainda a lenda em alguns lugares que afirma que é chamada de Missa do Galo, porque, a única vez que um galo cantou à meia-noite foi na noite em que Jesus nasceu.

    De volta à tradição da fogueira do Galo em Castelo Branco, um elogio para os rapazes solteiros de todos os tempos que ano após ano, geração após geração, mantiveram uma das fogueiras mais fortes e animadas do Concelho de Mogadouro e do distrito de Bragança.

    Por aqui o galo teve sempre uma sorte um tanto diferente. Prendia-se na ponta de toro de olmo, com alguns bons metros de altura, depois era sacrificado e assado na fogueira. Aquele que matasse o galo ia buscar uma remeia de vinho, e quando as pessoas se dirigiam à fogueira, podiam provar do galo e beber um copo de vinho.

    No dia 24 desde o começo da tarde, os rapazes começam a recolher e a juntar a lenha que vai formar a fogueira e permitir que ela fique acesa por muito tempo.

    A lenha que hoje existe em abundancia por todos os lugares já foi em alguns tempos escassa. Usada nos fornos para fazer o pão e nas lareiras para aquecer as casas e os corpos durante o inverno rigoroso, que se faz sentir em nossas terra, era pouca e muito valiosa. Nestes tempos os rapazes iam de porta em porta com um ou dois carros de bois a pedir a lenha para a fogueira. Cada família contribuía com o que podia dar, mas todos queriam participar e assim os carros de bois eram rapidamente carregados.

    A fogueira foi durante muitos anos acesa no adro da Igreja. Neste lugar permitia reunir à volta dela a todos para se aquecer e confraternizar ao chegar ou sair da missa.

    Nos anos seguintes a fogueira cresceu de tamanho e quantidade de lenha usada para a acender.Como foi ficando maior de ano para ano, para não por em risco a Igreja e as casas próximas, foi mudada de lugar para o largo da Casa Grande e ali é acesa até aos dias de hoje.

    Atualmente há lenha com fartura e são usados tratores e maquinas para a recolher por todos os lugares. Mas a participação e o numero de rapazes é cada vez menor, porem os que participam são valentes e fazem autênticos milagres para manter esta tradição viva. Os albicastrenses são determinados, e tem feito algumas das maiores já vistas em todos os tempos, como por exemplo a de 2009.

    A fogueira é sempre motivo de orgulho e de união na nossa terra. Uma festa alegre, brindada com a força e alegria de todas as famílias de nossa aldeia, e claro que não podia deixar de ser celebrada também com alguns garrafões do vinho “nacional” albicastrense. Um vinho muito especial, como dizem os entendidos e apreciadores: O vinho, “nacional”, é um santo vinho  que alegra o coração das mulheres e não entristece o dos homens.

    A animada confraternização e reunião á volta da fogueira do galo proporciona a todos os presentes momentos de degustação de pão, presunto, alheiras, chouriços, chouriças, azeitonas que são sabiamente preparados com maestria pelas mulheres de nossa terra. O bacalhau cru, mesmo não sendo pescado na ribeira das pombinhas também faz sucesso e é muito elogiado por todos. Mas pudera não gostar, o sal dele puxa o vinho e apura o gosto…

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Nossa fogueira sempre fez e teve histórias para contar… Simbolicamente na década de 80 foi queimada uma malhadeira inteira na fogueira do galo, para representar o fim  dos trabalhos e canseiras da lida na lavoura, anunciado com a chegada das novas maquinas agrícolas à nossa região, . O autor deste manifesto foi nosso antigo regedor, Arlindo Parreira, um albicastrense que atualmente reside no Canadá, mas sempre presente.

    Relembrar tradições é também uma forma de as manter vivas! Talvez eu tenha esquecido de algo sobre a fogueira e missa do galo… Ajude a lembrar. Participe do site participe deste resgate!  Enviem artigos, fotos, lembranças, etc. para: luispardal@castelobrancomogadouro.com

    Abraços a todos e Feliz natal !

    Leia  outros artigos  do blog sobre a fogueira do Galo:

    Fogueira do Galo 2008 e Tradição da fogueira do Galo 

    Luis Pardal 

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

    Imagens recuperadas

    Imagem recuperada do Portal Castelo Branco Mogadouro
    Imagem recuperada do Portal Castelo Branco Mogadouro

    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • À Barbara o que é de Barbara, e a Bernardino cerejas.

     

    Já lá vai o tempo do inverno. As folhagens sucederam às flores que agora encobrem cachos verdes de pinções de cerejas ainda a amadurar.

    O dia do São Bernardino está próximo. O Santo das cerejas, do começo do verão, das ceifas, das colheitas e das hortas pra regar com a água dos ribeiros, que depois disso como que a dizer, tarefa cumprida, secam por inteiro até as chuvas do final do outono.

    Um padroeiro muito interessante, São Bernardino, que divide na nossa terra, com Sta. Barbara, a difícil tarefa de serem os protetores das trovoadas. Apesar de dividirem a responsabilidade de mandar as trovoadas embora do espaço aéreo albicastrense, é Santa Barbara que leva a melhor, e que fica com os louros, pois nunca ouvi alguém dizer pelo povo: “só te lembras de São Bernardino quando troveja”. Mas, à Barbara o que é de Barbara, e a Bernardino às cerejas e festa de maio. Eles que estão lá no alto do céu não devem dar muita importância pra estes títulos carinhosos com que nosso povo os apelidou.

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    A devoção e as crenças populares estão cada vez mais distantes e perdidas na memória do povo. Mudam-se os tempos, e as necessidades. O bom santo perdeu a função, poucos ainda se lembram dele quando troveja. Eu confesso minha fé, mesmo longe da terra quando as chuvas, trovões e relâmpagos ameaçam, é para ele que elevo minha prece, meu rico São Bernardino.

    Isto porque me ficaram no coração e na mente as memórias e imagens guardadas da infância, que me trazem de volta o sentimento de angústia e aflição que nosso povo vivia com a ameaça das trovoadas.

    O sustento das almas e dos corpos vinha da terra. A vida e a subsistência estavam nos campos de trigo, centeio, cevada e nas hortas plantadas com batatas, cebolas, feijões, couves, pimentos e alfaces. As trovoadas ameaçavam e punham tudo isto a perder. A fartura e o resultado de um ano inteiro de trabalhos eram perdidos em minutos de tempestade.

    A vida tinha prioridades e valores diferentes das de hoje em dia, as pessoas eram mais solidárias, compartilhavam das mesmas alegrias e dores, viviam juntas os mesmos destinos e sinas.

    Assim quando as nuvens ameaçavam trazer a trovoada, lá estavam as mulheres da nossa terra, a correr para a igreja a pedir a São Bernardino a proteção. Normalmente, eram preces desesperadas e sentidas. Vindas do mais fundo do coração das mães que anteviam a falta do pão nas mesas. Mães que sentiam por antecipação na própria carne a fome dos filhos ou o frio do terrível inverno que teriam que passar com a tulha vazia.

    Mulheres atentas, que tinham a missão de zelar pela vida que corria perigo com a chegada dessas forças terríveis da natureza.

    Mulheres sábias que, ao verem que a ameaça era maior que a força delas, apelavam para o divino, por se sentirem pequenas perante a enormidade da natureza, que se preparava para descarregar um dilúvio por cima da aldeia. Ninguém melhor que São Bernardino e Santa Barbara para interceder.

    Acudiam a igreja com uma escada para descer os santos do altar. Depois, em contrita procissão, subiam à torre da Igreja e lá ficavam a rezar, e a repetir ladainhas entrecortadas por Ave Marias e padre nossos, abraçadas aos santos padroeiros.

    A fé move montanhas. Foram muitas trovoadas que as mulheres de Castelo branco fizeram dispersar a olhos vistos por cima dos cabeços e montes da nossa terra.

    Nem sempre a fé foi suficiente para evitar tragédias, e nem os santos tiveram tal poder. Houve uma trovoada que ficou famosa em nossa aldeia pela desgraça que criou. Quem me lembrou dela foi o nosso amigo Arlindo. Muito em breve estará aqui esta história pra relembrar do acontecimento e da solidariedade das gentes albicastrenses.

    Luis Pardal

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

     Foto Guilherme Sanches

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

    Imagens recuperadas

    Imagem recuperada do Portal Castelo Branco Mogadouro
    Imagem recuperada do Portal Castelo Branco Mogadouro

    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • Tempo de podar e lavrar as vinhas

     

    Lembro com muita saudade desta época, e dos trabalhos de podar,  lavrar e, arredar as vinhas. Cresci á volta das parreiras. Meu pai dizia que fui encomendado debaixo de uma na nossa vinha da rodela. Não duvido disso.

    Alem dele, meu avó Antonio plantou vinhas nas figueirinhas, vale de viado, prado de carriçais, e no boboedo. Em todas tinha uvas de boas e variadas castas. Na nossa casa sempre tivemos vinho muito bom.

    Nossa região e distrito, está sujeita  a geadas fortes todos os anos que põem em risco as rebentações temporãs. Assim meu avó e pai e a maioria dos conterraneos só podavam as vinhas pelos fins de fevereiro ou começo Março.

    Depois da poda, era hora da lavra. Meu pai sempre fez estes trabalhos  com uma junta de machos, não gostava da lentidão dos bois ou vacas. Era enérgico e gostava de fazer as coisas de forma rápida e eficaz. Como sabem na lavra das vinhas tinham que ser postos em um jugo mais estreito para poder entrar nos valados e chegar com a charrua o mais perto possível das cepas.

    Os valados eram estreitos e lavrados por inteiro de ponta a ponta. Por melhor que fosse o lavrador sempre sobrava trabalho para fazer á mão com os ganchos ou sachos. A charrua e o arado não iam muito perto das parreiras pois tinha risco de as arrancar ou danificar os rebentos. Nisto sempre ficava uma boa porção de terra entre as parreiras que obrigava a cavar para tirar a erva. Este trabalho era feito nos ganchos para arredar a terra, tirar ervas daninhas, e deixar as cepas arejadas e livres de plantas que pudessem disputar a água e mantimentos.

    Era lida para alguns dias. Normalmente as férias da páscoa caiam sempre nesta época e eu voltava todos os anos para o seminário com as mãos cheias de calos que me faziam lembrar durante um bom tempo dos dias na aldeia a arredar as parreiras. Minha mãe dizia que era para me agarrar com mais ganas aos livros a estudar. Um santo remédio…

    Apesar do trabalho duro, sempre lembrava e, lembro ainda, com muitas saudades, das merendas que comiamos juntos, sentados á sombra de alguma oliveira. Minha mãe dizia que a hora de comer era sagrada. Uma toalha estendida no chão e todos sentados à volta dela.

    No farnel da merenda quase sempre havia um pouco do fular que sobrara da páscoa, pão, azeitonas, presunto, queijo, alguma chouriça e alem disso nunca podia faltar uma cantara de barro com água fresca colhida de alguma fontaela localizada perto da vinha. Para os adultos sempre tinha a “bota” do vinho, que refrescava a goela e enchia com novo alento e força os ânimos para continuar os trabalhos.

    A poda tem seus segredos e arte. Poucos tinham na mão e nos olhos o dom de saber ver com propriedade por onde começar e como fazer.

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Lembro com saudades destes gestos feitos vezes sem fim,  do inicio ao fim do dia pelo meu pai e avo. Estes podadores ficavam parados a olhar a parreira em silêncio no mesmo jeito de quem estuda um mapa. Olhos espertos e atentos olhavam primeiro para a vide e a estudavam para entender como foi a rebentação e desenvolvimento do ano anterior. A grossura e a saúde das vara diziam quais seriam ou não mantidas e em quais valia a pena apostar para uma boa frutificação.

    Depois desta análise experiente era a hora do corte das vides. A tesoura de poda era guardada como um tesouro de um ano para o outro e por mais que eu tentasse não me deixavam chegar perto dela para brincar por nada deste mundo. Tinha que estar bem afiada para cortar bem, com um “golpe” só, sem deixar rebarbas. Por isso a mantinham fora do meu alcance.

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Sempre me impressionou muito o choro das parreiras. Meu pai dizia que elas choravam por lhes cortarem os braços mas que era um choro de alegria pois não teriam uvas se não as podássemos. Confesso que algumas vezes eu cheguei a beber da seiva que corria solta das vides cortadas, para ver que gosto tinha. Um gosto adocicado com sabor de terra e vide que em nada lembrava o vinho. Fiquei decepcionado. Na verdade tinha gosto de lágrimas, lagrimas de parreira.

    [Imagem histórica em validação de autoria e direitos]

    Mas a poda continuava e ela é na verdade o tratamento da vara que vai dar a próxima rebentação. Lembro que tanto meu pai como meu avó deixavam pelo menos dois “ôlhos”  ou mais dependendo do estado da videira, e que por vezes tabem se deixavam alem da vara o cepo, ou serroteavam parte da cepa para fazer com que ela rejuvenescesse.

    As demais vides eram cortadas rentes para fazer a limpeza da base. No fim do dia recolhiam-nas em molhos e eram amarradas com vencilhos de centeio e amontoados em um canto da vinha para secarem e depois serem levadas para casa e servirem de lenha para o forno ou aquecer a lareira. Na aldeia nada se perdia tudo tinha um uso ou serventia.

    Mas o que mais gostava de ver e ouvir eram as sentenças que tanto meu pai quanto meu avo gostavam de dar do serviço da poda alheia. Sabem do que falo: Ao andar pelos caminhos que passam perto das vinhas pode-se observar o trabalho feito. Quem passava sempre ficava a reparar se a poda estava ou não bem feita. Quem sabe, nota o bom serviço e antevê o resultado para bem ou para mal. E como eles diziam: “Ele há lá podadores e os outros que se dizem, mas na verdade só cortam uma vides, e o pior de tudo é que acreditam que mesmo assim podem esperar que o ano seja propício.”

    Tempos bons que foram embora. Nos anos 60 a vinha constituía depois da cultura do centeio e trigo a maior das extensões cultivadas. Nesta década ocorreu o grande surto emigratório que despovoou nossas aldeias.

    Assim as vinhas de valados estreitos ficaram cada vez mais difíceis de manter pela falta de mão de obra que as cultivasse. A lavra com as vacas, machos ou mulas feitas de forma artesanal e muitas voltas que a terra levava eram feitas no arado charrua, nos ganchos e sacho por muitos jornaleiros que com isso ganhavam a vida, o pão e o vinho. Um dia inteiro para ganhar alguns escudos. Para os mais novos, o equivalente a aproximadamente dez cêntimos.

    Assim chegamos aos anos 80 e a falta de mão de obra ficou cada vez mais notada. Começa então um arranque parcial: valado sim, valada não para que se pudessem lavrar as vinhas com os tractores. A partir de 1986, chegaram os subsídios da CEE para arranque da vinha. De forma desenfreada estes fundos e os donos afoitos ao dinheiro enganador, agiram sem perdão e sem remorsos, piores que a mais destruidora das molestias e liquidaram a tradição de séculos, e as vinhas uma após outra, foram sendo quase todas arrancadas e extintas.

    As cepas que antes se enchiam de cachos maduros de malvasia, verdelho, ou touriga agora serviam de lenha nas lareiras. Quero crer que é por isso que as pareiras choravam e choram por tanto desleixo e insensibilidade.

    A paisagem mudou quando foram retiradas as enormes manchas de verde, o vazio dos campos deixou a paisagem mais árida. O pior é que não voltaremos a ver o verde das parreiras, nem o vinho excelente que sabemos que estas terras davam.

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

    Imagens recuperadas

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.