Autor: luispardal

  • Cantar os Reis

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    Pensei ir a cantar os Reis de porta em porta para abraçar e desejar um feliz 2012 a todos os albicastrenses.

    Lembrei dos cantos e da animação da minha terra durante o dia de reis e ficou um gosto de saudade no ar.

    Dia 06 de janeiro também é o dia de desmontar o presépio. No primeiro sábado de Dezembro é sempre com grande alegria que preparamos, na sala de casa, um cantinho especial para celebrar o natal, com o pinheiro e o presépio. Hoje ao desmontar e guardar as imagens, o coração ficou triste por alguns momentos, mas logo me dei conta do sentimento que me apertava o peito e sorri ao lembrar com esperança de que mais um Natal será celebrado em 2012 e assim o será em todos os anos. A melancolia deve nos remeter para a esperança de dias melhores. E não é este o sentido desta quadra? A esperança e a certeza de dias melhores!

    A adoração ao Menino Jesus, é uma tradição das mais antigas das nossas aldeias, uma tradição gravada nas memórias e que remete a todos para a infância. Afinal é nesta fase mágica de nossas vidas que os sonhos, e os pensamentos são sem limites e cheios de possibilidades. Como seria bom se não perdêssemos este dom: sermos meninos(as) para sempre.

    Em Castelo Branco era frequente, constituírem-se grupos improvisados de cantadores e cantadoras que, à noite, percorriam as ruas da aldeia, de porta em porta, a cantar aos senhores de cada casa, para desejar saúde, sorte e prosperidade, para o ano novo que chegou abençoado pelo nascimento do Menino Jesus. Actualmente, esta tradição, ainda se mantem graças a iniciativa de alguns saudosos. A troca pela visita e o cantar dos Reis ou das Janeiras normalmente era uma peça de fumeiro, castanhas, amêndoas, figos secos, além da alegria de servir um prato de milhos regados com o bom vinho nacional. As linguiças e alheiras recebidas serviam depois para fazer uma patuscada, ou um fado, como dizemos por lá. Quase toda a gente adere e as famílias ao saberem dos cantadores nem se deitavam à espera que o grupo passasse pela casa. A iniciativa sempre foi organizada pela malta nova. que é na grande maioria das vezes a responsável pela animação e continuidade das tradições. Seria bom que os mordomos das festas começassem o ano com o canto das Janeiras e dos Reis assim além de manterem a tradição já iniciavam o ano com recursos para realizar as festas e integrar as duas tradições.

    QUE OS SANTOS REIS NOS TRAGAM A TODOS HARMONÍA E PAZ!

    FELIZ 2012

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • As obras continuam

     

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • De histórias à um site.

    Rascunho interno de recuperação. Não publicar antes da confirmação de autoria, integridade documental e autorização de republicação.

    Autoria indicada no portal histórico: Isabel C.

    Algumas crianças brincam de pirata, outras de boneca, outras de desbravar o mundo inteiro… Eu brincava de desbravar minha criatividade. Alimentada inicialmente por cantigas, pelas histórias de meu pai e em seguida pelos livros. Desde então não me canso de pensar novas histórias e possibilidades de rumos dos personagens.

    Quando mais nova lembro-me de constantemente pedir à minha mãe que me cantasse algumas músicas antes de dormir. Já ao meu pai, era quase inevitável não pedir que me contasse uma de suas histórias de mais moço.

    Contarei algo a vocês que provavelmente já sabem. Nascido em Castelo Branco Mogadouro, meu pai teve uma infância que é totalmente diferente da que eu e meu irmão poderíamos ter. Cuidando das vaquinhas, indo ao seminário, pegando água no poço, saindo para pegar lenha para a fogueira do galo; são todas experiências que não vivemos, mas que podemos sentir como eram através do modo como ele contava.

    Descobri assim um mundo novo. Conheci um pedacinho da terra que originou algumas das culturas de meu país, e acima disso, conheci um pouco mais sobre a cultura de meu pai e seus conterrâneos.

    E eis que toda noite em que suas narrativas entravam em cena, minha mente saía por dentre os cenários de suas histórias. Devo confessar que minha curiosidade de ver como eram tais cenários crescia a cada noite que se passava.

    Anos se passaram, e agora raramente posso ouvir as histórias de meu pai à noite. Foi então que surgiu uma saída, um modo que ele encontrou de fazer com que, tanto os albicastrenses como outros curiosos, pudessem relembrar e conhecer as histórias de sua aldeia. Nasce o blog: Portal de Castelo Branco Mogadouro. Sim! Fora uma criação e tanto. Através de contatos com escritores de Castelo Branco, outros que já não mais moram lá, e outrora de escritores do Brasil e outros países, o blog conseguia trazer matérias e fotos contando um pouco mais sobre o modo de vida e cultura da aldeia.

    Minha curiosidade foi abatida, momentaneamente. Tinha acesso a diversas coisas e acabei podendo matar um pouco das saudades das histórias de meu pai. O blog cresceu, e fruto de uma interatividade maior do que esperada, nasce o site.

    Devo confessar que ver o blog crescer, virar site e chegar onde está me enche de alegria. Volta e meia penso: “Se enche a mim, que sequer sou de lá, de alegria; imagino o quão contentes estão que de lá são de facto!”.

    Espero que esse processo de crescimento seja ainda maior com o passar do tempo, e quem sabe, se meus planos conseguirem se tornar realidade, um dia não escreverei uma matéria ou história sobre a aldeia que foi o cenário de diversas histórias que ouvi?

    E é com esse sonho e uma pergunta que finalizo meu relato; O que Castelo Branco significa para ti?

  • Pelas pombinhas

    Aqui a primavera chega com o murmúrio do vento que desce das fragas e corre, pela ribeira, ao sabor da margem. Por estes lados o tempo passa em ritmo próprio, com passos certos e sem pressa… A cada ano a vida renasce prenha das sementes que rasgam o ventre das terras que o inverno em vão congelou.

    A ribeira é a única que teima em passar sem se deter, sem nunca parar. Mas ela é certa e constante no eterno fluir da troca de estações. Para nós, simples mortais, passageiros. Viver o presente é a melhor maneira de ser eterno em cada momento. Um saber que leva tempo mas devolve felicidade.

    Um aviso para quem quiser passear pelas pombinhas! Precisa estar preparado para acertar o coração com o relógio deste paraíso e deixar encher o peito e os olhos com a beleza que jorra por todos os lados, e sentir, saborear o ar, e a natureza. Sem dúvida, isto é um grande privilégio que vale a pena!

    Um forte abraço para a Guilhermina e o Ernesto. Um muito obrigado ao Alberto Paulo pelas fotos. A todos um convite para visitarem este lugar encantador.

    Abraço

    Luis Pardal

     

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    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

    Imagens recuperadas

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • “Bruçó”

     

    Resolvi escrever estas linhas para agradecer ao Antero Neto o exemplar que me enviou do livro de sua autoria “Bruçó”. Excelente obra que reflete o trabalho do autor e a sua paixão por resgatar a história antiga de Bruçó e das terras de Mogadouro. 

    Da minha parte lhes digo que é um livro é encantador, que recomendo a todos!Eu de primeira abri e não consegui parar de ler. Aproveito para informar que o livro já se encontra à venda na Livraria Carvalho, no Hotel Trindade Coelho e no restaurante “A Lareira”.

    Quero agradecer tambem ao Isaias Cordeiro pela gentileza de postar o livro nos correios, e me fazer participar desta leitura.

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    Citações: www.jornalnordeste.com

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    Arquivo: Edição de 15-03-2011

    Secção: Nordeste Rural

    Memórias de Bruçó

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    Obra literária compila memórias paroquiais de 1747 e 1758, notas históricas e etnográficas
    O espólio literário do concelho de Mogadouro está mais rico com a obra “Bruçó, As Memórias Paroquiais de 1747 e 1758, Notas Históricas e Etnográficas”, apresentado na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, em Mogadouro.
    Com autoria de Antero Neto, o livro divide-se em três capítulos, sendo o primeiro dedicado às Memórias Paroquiais do séc. XVIII. Nesta parte, o advogado descreve a estrutura administrativa e produtiva da época, tendo como referência a obra do Pe. Luís Cardoso.
    No segundo capítulo destaca-se um “breve ensaio” sobre o topónimo “Bruçó”, bem como a dissertação sobre a festa solstício dos “Velhos e Chocalheiro”, rituais de Natal que o autor disseca e tenta enquadrar. De referir, ainda, um estudo sobre o “Castelo dos Mouros”.
    Finalmente, na terceira parte do livro é feita a resenha da evolução demográfica da freguesia de Bruçó, desde o primeiro censo oficial de 1864, até aos dias de hoje.
    “É a minha primeira incursão neste campo, e representa um reencontro com uma paixão antiga pela História e Arqueologia”, salienta o Antero Neto, natural da aldeia focada na obra.
    Trata-se do segundo livro do advogado, sendo que o primeiro, com o título “Serões do Planalto” é uma colectânea de contos, lançada em 2006 sob a chancela da editora “Labirinto”.
    A edição deste livro contou com o apoio da Junta de Freguesia de Bruçó e da Câmara Municipal de Mogadouro.

    Por: Francisco Pinto

     

    Citações: mogadouro (ho mogadoyro)

    Sábado, 12 de Março de 2011

    Apresentação do livro “Bruçó…”

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    Fotos: José Bento da Silva.

    Decorreu hoje, na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, em Mogadouro, a apresentação oficial do livro “Bruçó, As Memórias Paroquiais de 1747 e 1758, Notas Históricas e Etnográficas”. A exposição sobre a obra esteve a cargo do Dr. Pimenta de Castro. No final houve sessão de autógrafos e convívio com os presentes, no bar das instalações da biblioteca.

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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    Imagens recuperadas do acervo histórico do Portal Castelo Branco Mogadouro. Créditos e direitos em conferência documental.

  • O essencial está nos detalhes

    Nesta semana, mais um amigo chegou a Florianópolis, António Cordeiro, de Remondes, do Concelho de Mogadouro.

    Um verdadeiro enamorado pela sua terra a quem dedica uma paixão sem limites manifestada no site que escreve www.remondesonline.com  Foi através do site que nos conhecemos, por alguns artigos que ele escreveu sobre Castelo Branco que gentilmente autorizou a publicar aqui no site e blog. Na troca de e-mails logo informou que conhecia Florianópolis e que muito em breve viria por aqui. Nesta sexta feira tive a alegria de o conhecer pessoalmente e de almoçarmos juntos. Sábado de novo visitamos alguns lugares da cidade e almoçamos no Varandas de Lisboa, um restaurante sobre o qual lera um artigo no Jornal Diário Catarinense e que gostaria de conhecer.

    O António viaja o mundo com olhos abertos para os detalhes, as nuances, e as situações pitorescas que os países e povos apresentam.  Ao voltar para casa leva junto na mala, a riqueza dos lugares que visita. Impressionou a dedicação dele para estudar a história, cultura, costumes, as tradições de Florianópolis e Santa Catarina. Curiosamente fez revelações sobre lugares e coisas que eu não conhecia. Por exemplo fomos ao mercado provar uma chouriça feita em Pomerode que lembra as de nossa terra e que ele descobriu nas várias visitas que fez a esta Ilha da Magia. Um cozinheiro de mão cheia, quando o fui buscar ao hotel,   uma grata surpresa de presente: embrulhados em alumínio, uma dúzia de pasteis de bacalhau, maravilhosos, os autênticos, que ele fizera na casa de uma amiga.

    É também um estudioso da história de nossas terras, famílias e tradições. Uma memória fantástica, enciclopédica, rica de detalhes e de conteúdo que impressiona pelo vasto conhecimento e pesquisas sobre nossas terras e gentes.

    Conhece bem Castelo Branco e me revelou que foi praça do Arlindo Parreira no ultramar. Segunda feira antes da partida para o Rio ainda vamos almoçar juntos mais uma vez. Visitem o site www.remondesonline.com para acompanhar as narrativas que ele mesmo faz sobre a viagem.

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    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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  • O último presente do menino Jesus.

     

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    Em uma noite de Natal há alguns anos atrás, eu prometi a mim mesmo,que iria descobrir como, o menino Jesus fazia para deixar os presentes, nas botas que religiosamente, ao voltar da missa do galo, eu punha perto da lareira antes de ir dormir. Desde o ultimo Natal andava intrigado com e tinha jurado, a façanha, de que deste ano não passava, sem descobrir de que maneira ele vinha e mais importante que isso, por onde ele entrava para deixar os presentes, na lareira da minha casa. Determinado e muito intrigado fiz planos e montei uma estratégia infalível.

    Todo este interesse começou no soto da Tia Variza, dias antes do ultimo Natal, em uma conversa muito animada com ela. Os mais novos talvez não lembrem que ficava na praça.

    Perto do Natal era um sonho entrar lá. Ela e marido, o Sr Eloi, enchiam as prateleiras de brinquedos, e o mais curioso é que por algum motivo mágico de um dia para o outro, alguns brinquedos desapareciam. No dia seguinte não estavam mais lá e eu, para não perder nada de vista, diariamente monitorava o sumiço cada vez mais intrigado.

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    Eles tinham uma Volkswagen azul que até hoje lembro. Todo ano, pelo mês de novembro, saiam para ir ao Porto e a outras cidades fazer compras e, quando voltavam, a camionete estava abarrotada de caixas e embrulhos. O soto brilhava cheio de novidades e de fantasia. Eram pisca-piscas, arvores de natal, fitas, bolas coloridas, e muitos, muitos brinquedos. Eu ficava lá de olhos esbugalhados o tempo que eu podia. Minha mãe e meu pai tinham que ir lá me buscar ou mandar alguma das minhas irmãs para me fazer voltar ao mundo real. Mas não era tarefa fácil, era preciso me arrastar à força ou pendurado pelas orelhas. Esta segunda opção era a mais bem sucedida e a preferida das manas.

    Os dias que antecediam o Natal, eram dias muito animados. Todos os meus amigos que já andavam na escola, tinham alguns dias de férias, perto do Natal. Sobrava mais gente para pintar e bordar. E como quem tem vagar faz colheres, nós pintávamos o sete de muitas maneiras. Os rapazes maiores, nas noites estreladas, iam ao tanque da praça e com uma caldeira ou balde jogavam água para fazer uma trilha que no dia seguinte amanhecia solidificada pela geada. Era a nossa pista de patinação. Ficávamos em fila para deslizar. Depois com o embalo de uma corrida rápida, escorregávamos de ponta a ponta. Não preciso dizer que entre um escorregão e outro sempre aconteciam pequenos acidentes e brigas de garotos. Brincadeira não demorava muito tempo, conforme o dia avançava o gelo derretia e nós também tempo depois, engaranhados, pelo frio que fazia, fazíamos uma fogueira com lenha tirada as escondidas das rilhas dos vizinhos ou íamos para a lareira de algum para nos aquecermos ao lume.

    O inverno trazia algumas rotinas interessantes. Naquela época a maioria das casas ainda não tinham água canalizada e os marcos da praça, da Igreja, do vale e da rua das flores eram o ponto de encontro e de abastecimento. Uma rotina que fazia parte dos afazeres das mulheres albicastrenses ”ir à água” algumas tinham que ir varias vezes ao dia. Pois para lavar a cara de manhã, fazer a comida, lavar a louça, era preciso ir ao marco. Por causa da geada em muitos dias era preciso aquecer as torneiras com um fachuqueiro de palha para descongelar e poderem encher as cântaras.

    Nas semanas antes do natal os mordomos faziam o presépio. A cada ano uma novidade diferente o deixava mais esperado na curiosidade de todos. Cada comissão de festas queria fazer melhor que a anterior. O resultado final, apesar da saudável competição, nem sempre era dos mais bonitos. Na tentativa de superar os anteriores, por vezes exageravam nos tons e nas proporções da arvore, ou da gruta e o presépio, perdia a noção da escala das imagens e, assumia desproporções simpaticamente bizarras. Mas meus olhos de menino não viam desta forma. Naqueles dias o importante era que iam a fazer o presépio e eu queria logo ver o menino Jesus Chegar.

    Todos os anos eu e os demais comparsas fazíamos plantão na porta lateral da igreja para acompanhar o movimento dos mordomos e não perdermos nada de vista. Apesar da insistência não nos deixavam entrar de jeito nenhum e lá ficávamos eternos assistentes, a desejar crescer logo, para também podermos ser mordomos e fazer o presépio.

    Em um desses anos fizemos uma tentativa no mínimo criativa e cheia de engenho infantil. Pensamos em nos esconder dentro da igreja para assistir a tudo. E se pensamos melhor o fizemos. Um plano simples porem infalível, ficaríamos escondidos no coreto da igreja. Foram horas a fio trancados para poder acompanhar tudo em segredo. Para os que não sabem, esta parte da Igreja fica no fundo e só tem acesso por duas escadarias localizadas uma de cada lado da porta principal que fica ao fundo. Na pratica é como se fosse um primeiro andar, uma plataforma acima do meio da igreja para baixo bem acima da parte onde ficam as mulheres na igreja. Na nossa terra os homens sentam na frente perto do altar mor e do padre, e as mulheres ao fundo. Sempre achei engraçada esta divisão da localização das pessoas por sexo dentro da Igreja. A verdade é que sempre foi assim e até aos dias de hoje ainda tem alguns dos antigos e dos tradicionais que mantém a tradição. O coreto era também o lugar preferido pelos homens mais simples visto que lhes permitia estar na missa sem notarem as roupas mais humildes que usavam.

    Entramos na Igreja muitas horas antes dos mordomos chegarem. Não foi tarefa fácil, algumas devotas mulheres, ficaram na Igreja a rezar depois da missa. Nossa tropa na tentativa de ver se elas já tinham saído entrou algumas vezes e disfarçadamente ficávamos a rezar em frente ao altar do senhor dos passos. As mulheres foram ficando alarmadas com tanta devoção infantil, mas, como de repente paramos de aparecer, logo que rezaram foram para suas casas que já era quase hora de fazer o almoço aos maridos e filhos. Estranharam as mães que não aparecemos para almoçar. Já de campana Quando preparados deitados para esperar os mordomos em silencio, ouvimos ao longe o grito certeiro da mãe de um de nós: ó fulano…

    Quem nasceu na aldeia sabe bem o poder de comunicação e de alcance dos chamados maternos. Devido à insistência e ao coro de mães que aumentava em numero e nomes chamados no pregão, resolvemos levantar campana e ir almoçar, antes que elas tocassem o sino a rebate por pressentir que algo de terrível pudesse ter nos acontecido.

    Voltamos depois do almoço. Em casa todos estranharam a presa com que comi as nabiças com batatas do almoço. Acredito que não foi diferente com os demais. Voltamos rápido, tropa pontual quando em ação. Felizmente a devoção das nossas mulheres vem sempre, depois da obrigação de servir o almoço e matar a fome dos da casa. Com o caminho livre, entramos na igreja. Por sorte só os santos lá estavam e eles não costumam falar com ninguém além de Deus.

    Permanecemos imóveis deitados no coreto á espera dos mordomos para ver montar o presépio. Mas quem disse que garotos ficam quietos… Em menos de 15 minutos já nos tinham descoberto e em segundos nos puseram para fora. Já na rua desatamos a brigar uns com os outros para encontrar achar o culpado por nos descobrirem. Mais uma vez á porta a esperar. Pelo menos assim, podíamos espreitar e ver o que acontecia lá dentro sempre que algum mordomo entrava ou saia. Alem do presépio um delicioso perfume de Natal rico de aromas e tons decorava a igreja. Entravam canastras cheias de musgo em camadas, tapetes verdes felpudos com forte cheiro de terra molhada, um cipreste ou pinho ao bater os galhos na porta para entrar espalhava um rastro de resina. uma mistura doce amadeirada rica de sensações chegava da carpintaria do Ti António Bernardo em sacos de estopa cheios de lascas de madeira de olmo, freixo, cerejeira e castanheiro.

    Finalmente terminado o presépio podíamos entrar e dar uma olhada. Uma roda irrequieta e barulhenta formava um cordão de espectadores admirados com as novidades. Por segundos o reinava o silencio. Era como se cada um quisesse ver tudo com os olhos antes de abrir a boca para falar para o outro o que tinha mais interesse. Uma gruta ao centro, a burrica a vaca e a manjedoura vazia ao fundo, na Frente a Virgem Maria e São Jose. Um cenário de montes imitava a paisagem com musgo coberto de farinha em alguns lugares. A serragem e lascas de madeira faziam os caminhos parecerem reais. Enfileirados nos montes os pastores com ovelhas virados para a gruta chegavam para o nascimento do menino Jesus que iria nascer pontualmente no fim da missa do galo.

    Depois do presépio montado os dias para o natal passavam ligeiros e era fácil ver que andávamos mais comportados. Uma preocupação tomava conta de nós. Uma ameaça velada e repetida vezes sem fim pelos pais e avós. Será que te portaste bem este ano? Olha lá, que não sei não, se o menino Jesus te vai dar presentes. Por falta de vergonha ou medo o certo é que virávamos santos filhos e netos, obedientes pelo menos por alguns dias.

    Finalmente na missa do galo era a hora de pedir com mais força os presentes. Com medo e devoção interesseira, isto é, para garantir e não correr risco de ficar sem nenhum presente, punha no cestinho do menino Jesus uma ou duas moedas. Era muito pratica esta devoção infantil e as moeram eram para compensar alguma arte aprontada ao longo do ano e que ainda estivesse por reparar.

    Como tinha um plano infalível neste ano passei a missa inquieto. Voltei logo para a cama logo depois de por a bota na lareira e nem quis conversar nem aceitei as provocações que meu pai e irmãs faziam. Queria logo ir dormir. Mas fiquei quieto na cama a espera que todos dormissem e que se fizesse silencio por toda a casa. A uma certa altura senti passos vindo em minha direção. Fechei os olhos e mudei a respiração para convencer que estava realmente a dormir. Meus pais chegaram perto de minha cama, vieram se certificar se eu realmente adormeci, antes de irem na lareira. Sorriram confiantes um para o outro tranqüilos por verem que estava quieto no sono dos justos. Pelo som dos passos no soalho em direção a cozinha, soube que os dois já tinham saído do quarto. E pensei comigo mesmo, se eles vão para a cozinha para ver o menino Jesus eu também posso lá ir a esperar com eles. Levantei e sai do quarto sem fazer barulho. Com os pés calçados com uma meias de lã de ovelha feitas por minha mãe, era impossível escutar o suave roçar de meus pés na taboas frias.

    Ao chegar na cozinha, uma cena estranha. Perto das minha botas os meus estavam debruçados com um volume nas mãos. Havia pouca luz, mas ainda assim consegui ver pelo brilho das brasas nas toras ao lume que era uma camionete volskwagem, mesmo sem poder ver nitidamente pois estava escuro e não poderia ver as cores dela eu sabia que era verde e branca, a mesma que eu tinha visto no soto por alguns dias e que também sumiu como os outros presentes. Ao olhar o presente ali na mão deles entendi finalmente a frase que a Tia Variza me tinha dito dias antes: – Luis, o teu menino Jesus já passou aqui para comprar o teu presente.

    Voltei para a cama sem que me vissem. No dia seguinte acordei muito mais tarde já era perto da hora do almoço. Não estava feliz e minha boca estava seca e com um gosto ruim. Cheguei calado na cozinha. Ao ver o brinquedo que o menino Jesus me deu, não fiz a mesma festa com que sempre o recebia ninguém entendeu ou percebeu o que aconteceu, nem o desinteresse com o novo presente. Mas, minha mãe imediatamente viu que algo mudara dentro de mim. As mães sempre sabem dessas coisas que ficam espelhadas na cara dos filhos. Felizmente só elas as percebem e entendem.

    Finalmente eu sabia que não era o menino Jesus que vinha trazer os brinquedos. Nunca mais o Natal teve o mesmo significado.

    Passaram-se os anos. Tenho dois filhos, que agora estão com 16 e 14 anos. Enquanto cresciam e durante os primeiros Natais, pude entender e ver na expressão deles, a mesma magia que o Natal tinha para mim quando criança. Finalmente entendi que mesmo sem o menino Jesus ou Papai Noel, o Natal, tem um sentido muito especial. E que esta magia e simbologia devem ser mantidas e preservadas no coração de nossos filhos. Afinal é na inocência das crianças que o mundo mantém a sua mais pura e intima forma de felicidade e de beleza.

    Feliz Natal

    Nota editorial: conteúdo recuperado do antigo Portal Castelo Branco Mogadouro. A formatação foi atualizada para esta republicação; o texto e a data histórica foram preservados.

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  • A horta das Lameiras

    O texto andava na gaveta e fazia parte do meu diário de infância e dos dias de Verão que passava com os meus avós e que com eles ia às hortas.E…depois de há tempos ler o trecho do meu primo Isaías sobre este local voltei ao meu arquivo pessoal.

    Naquela noite quente a minha avó Aida (Cordeiro) veio a nossa casa depois do jantar perguntar-me se não queria ir com ela regar à horta das Lameiras ao que eu logo acedi.

    Pelas cinco horas da manhã fui acordada pela voz da minha avó:- Oh Aidinha! Aidiiinha! Anda minha filha, levanta-te.

    Acabrunhada fui-me vestindo e calçando. Desci as escadas para cozinha e aí já me esperava a caneca de leite com cevada e uma torrada.

    – Despacha-te! Olha que o avô já foi há um bom bocado e já deve estar a chegar à horta. Exclamou ela no sentido de me apressar.

    Quando desci as escadas de acesso à rua a burra já estava albardada e as portas da adega e da curralada fechadas. Faltava apenas eu. A madrugada estava ainda fria apesar de ser pleno Julho. Agasalhada pelo casaco de malha lá subi para cima da burra e subimos a íngreme rua da Igreja. Eu a cavalo e a minha avó a pé puxando a rédea da burra para a ajudar naquele intervalo da casa da Ti Garcinda, pois ali ela resvalava e de nada valiam as ferraduras pois os paralelos pareciam ter manteiga.

    Passando o adro da igreja e chegadas ao triangulo a minha avó montou na burra. Eu escarranchada na frente da albarda e a minha avó sentada na traseira. Subir a estrada até chegar ao cruzamento da Serrinha da Rodela, no corte no Alto de Sto António e fugir dela. A falta dos balidos das ovelhas denunciava que já não estavam na corte ou mesmo até que tinham passado a noite ao relento, aproveitando as belas noites de Verão.

    Atravessamos mais uma vez a estrada agora já do lado de baixo da Serrinha e descemos em direcção à horta do Arlindo a caminho da Devesa. Daqui até às Lameiras encontramos quase todos os vizinhos. O caudal do ribeiro era pequeno e até às Lameiras de Cima havia muitas hortas, muito feijão, muito cebolo e muito tomate para regar. A augueira traz água pois os das hortas de baixo madrugavam mais no sentido de obter rega. Fizera-se acordo dos dias de rega e este era já tido por tácito para que todos pudessem ter água na horta. Muitos aí passam a noite como forma de aproveitar o tempo e a água. Uma delas era a Srª Maria Neto, outra a tia Idalina e o Sr. Zé Rito. Os meus avós tinham a sorte de ter um poço na horta de que lhes permitia ter algum desafogo.

    Os bons dias começavam ainda de noite pois aqui talvez pela força das encostas do vale a noite era escura. Mas a burra já sabia o caminho de cor e raramente tropeçava nos calhaus. Muitas vezes ouvia a coruja e ao amanhecer a passarada acordava e chilreava pelo caminho. A minha avó sabia identificar todos estes cantos e íamos dizendo.

    Ao clarear do dia chegávamos ao cimo das Lameiras e entretanto eu já tinha saltado do burro para correr pela encosta acima e ver as vistas de toda a Devesa.

    Entretanto o meu avô Zé António chamava-me acrescentando:

    -Então rapariga ! Não vens ajudar a avó a regar? Deixa lá as subidas às árvores por ora, anda cá p’ra baixo ajudar. Vais para o fundo do suco ver quando a água lhe chega.

    Gritei: – Já voooooooou! E…desci em escorrega! Uau!

    Correr os sucos das batatas de ponta a ponta e…- Já chegou!

    No fim da rega já o sol começava a torrar e a minha avó já tinha colocado seu chapéu de palha e, já muitas vezes dissera:

    – Aida olha o sol!? Coloca o chapéu! Anda cá? Não queres lanchar? Toma lá pão com queijo.

    Ao chamado do chapéu fazia ouvidos moucos mas ao pão com queijo não me dava por rogada e lá ia eu procurar a fardela da merenda.

    Agora restava tapar o poço e virar a augueira para o ribeiro.

    Oh Zé! Tens horas? Perguntava a minha avó e este colocava a mão em pala no boné, olhava o sol e respondia: – São prá aí onze.

    Ou seja horas de colocar pés ao caminho. O sol já ia alto e continuava a queimar. O regresso até ás hortas das Devesas era feito a correr à frente da burra, a saltitar e colher as floritas que me apareciam na berma do carreiro. O meu avô esse iria mais tarde e como estava com o carro das burras faria o percurso da estrada, passando o Salgueiral.

    (www.fmsoares.pt)

    Carro de Bois e Arado, miniaturas em madeira, oferecido pela Junta de Freguesia de Castelo Branco de Mogadouro (35 x 17 x 18 cm.) Presidência Aberta do Dr. Mário Soares em Bragança (15 a 26 de Fevereiro de 1987)

    Curiosidade: Este carro de bois e arado foi feito pelo Sr. Ernesto Silva para a Junta de Freguesia oferecer ao Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Mário Soares

    Aida Freitas Ferreira

    Fotografias autorizadas

    Fotografia de Aida Freitas Ferreira
    Fotografia de Aida Freitas Ferreira
    Fotografia de Aida Freitas Ferreira
    Fotografia de Aida Freitas Ferreira

    Fotografias: Aida Freitas Ferreira. Republicação autorizada pela autora.

  • É tempo de vestir samarra!

    Nas minhas andanças pelos livros, que é onde passo quase todos os meus dias, dada a minha profissão, encontrei este poema que adorei e vem mesmo a calhar. Também eu tive uma samarra e como eu a adorava vestir e sentir o pelo macio que acariciava as orelhas a caminho da escola. E…nestes últimos dias em que o frio também chegou ao Porto eu voltei a lembrar-me dela … e assim vesti-a (uma outra que entretanto adquiri pois eu sei que não cresci muito mais mas aquela de quando tinha dez anos deixou de me servir). Já agora até me lembro do dia em que foi comprada. Foi comprada pelos meus pais na Casa Casimiros num dia de Gorazes. Ficou à consignação da Dª Alzira, balconista da secção de senhora, no sentido de eu passar por lá no dia seguinte para a experimentar. E caiu que nem uma luva, de tal modo que nesse Inverno a usei quase todos os dias. Continuo a adorar ver o look invernal transmontano: uma samarra pelo corpo, um boné de pala sobre os olhos e umas boas botas feitas à medida e curadas pelo sebo. A minha samarra É uma relíquia transmontanaEsta quente e vetusta samarraSendo típica veste de montanhaNa verdade, nada tem de bizarra A pele doirada, cor de piçarraDe dócil raposa sacrificadaÀ vaidade que lhe deitou a garraTem a docilidade entranhada É vestuário de estaçãoQue protege do frio no InvernoPor isso se usa sem condição Nas serras de Trás-os-Montes paternoAgasalha corpo e coraçãoE a samarra é, sinal fraterno Vale de Salgueiro, sábado, 21 de Agosto de 2010Henrique Pedro – “Poemas da Guerra de Mim e de Outrem” (Editora Piaget – 2001). Aida Freitas Ferreira [Imagens históricas em validação de autoria e direitos.]

    Fotografias autorizadas

    Fotografia de Aida Freitas Ferreira

    Fotografias: Aida Freitas Ferreira. Republicação autorizada pela autora.